frank 4



Parte 4

O filhote “albino” de dona Citrina, de mal-humor e sem ânimo, ficara pelo território todo o dia. Como não tinha nada para fazer e, também, não queria fazer nada. Resolveu tirar o dia para atazanar sua pobre mamãe híbrida com perguntas. “ - Mãe, por que peixe está sempre com fome?” “ - Não sei meu filho.” “ - Porque está sempre com água na boca...hahahahahaha.” - obviamente, caía na gargalhada sozinho – essa era a piada mais velha do aquário. “ - Mãe!” “ - O que é meu filho?” “ - Você ainda não me disse que cor eu vou ficar.” “ - Talvez laranja, talvez azul, talvez verde, talvez salpicado com todas essas cores.” “ - Você sabia que iria ficar laranja quando era do meu tamanho?” “ - Na tua idade, Frank, eu só brincava...” “ - Você sabia que iria ter filhos?” “ - Frank, de onde tiras tantas perguntas?” “ - Mãe eu quero saber...ninguém me responde nada! Por que? Por que? Por que? Por que? Por que? Por que?” A mãe de Frank já não aguentava mais perguntas tantas perguntas e ignorou-o (será que é por isso que em certo momento as mamães peixas começam a comer os filhotes?), fingindo estar zangada com o papagaio que ali transitava. Foi quando tudo mudou. O “Senhor dos Alimentos, da Neve e da Água Fria” se aproximou de novo, todos os peixes subiram à superfície. “ - Eu vi primeiro!” - gritava um; “ - To com fome! To com fome! To com fome!”- repetia outro; “ - Vou te dar porrada se você ficar roçando essas nadadeiras flácidas em mim”- dizia um mais enfezadinho. Era um blá, blá, blá sem fim...todos queriam comer...todavia, de repente, todos fugiram e foram se esconder... Não era comida e sim uma daquelas bolhas duras, que prende um peixe em seu interior, que era colocada no aquário. Frank viu que mal fora colocada no aquário, o “Senhor dos Alimentos, da Neve e da Água Fria” a estourou e libertou o prisioneiro. O pequeno Frank pensou: “ - Como é bom nosso “Senhor dos Alimentos, da Neve e da Água Fria”, ele libertou um dos nossos...” - enquanto dizia isso o novo habitante do aquário caía pesadamente em direção ao fundo. Frank o ouviu resmungar: “ - Que humano imbecil, será que ele não sabe que os peixes tomam choque térmico. Tem que ter aclimatação...e essa água salgada, será que ele pensa que sou bacalhau de supermercado? Já devo ter perdido uns 20 mililitros de água por diferença osmótica só nessa decida...muco pra que, né? Nem preciso dele...que humano imbecil!” Frank ficou impressionado, aquele peixe falava coisas ininteligíveis, coisas que nunca ouvira outro peixe falar, fosse nas reuniões de condomínio, fosse nas brigas ou nas conversas ao pé do aquecedor nas noites frias. Como um ímã foi atraído para junto do peixe. “ - Pequeno filhote híbrido...” - dizia o peixe com a boca retorcida pelo choque térmico - “...te advirto que mesmo eu estando em choque e tua mãe me olhando com aquele ar desesperado ali eu sou piscívoro...fuja enquanto é tempo!” A cara de Frank era exatamente esta: e depois esta “- Que tipo de “Ciclídeo Africano” é você? Acará Severo! Você parece a tia Severa, mas não é. Já sei é híbrido!” - Frank ficara eufórico e já não parecia albino. “ - Não sou africano e sim sul-americano. Quanto a tua tia Servera, sou parente próximo, de fato, mas meu nome científico é Heros notatus e o dela é Heros severus.” - o peixe falara agora com um tom notavelmente superior. “ - Nãããão é não...você é um Herói-Severo!” - disse, agora, apontando para um local onde estava sua “tia Severa”, que já olhava o novo habitante do aqua de “CAs” com interesse. “ - Esse é um nome vernacular meu jovem.” - informava o mais novo e culto habitante do aquário; beirando a impaciência (geralmente curta entre os ciclídeos de um modo geral). “ - O que você faz num aquário de africanos se você não não é um?” - pergunta Frank (de novo). “ - Meu caro alevino, mais da metade dos peixes daqui têm da África apenas remotos genes, pois já habitam a América Central e do Sul há milhares de gerações.” - respondia com um tom quase arrogante - “E essa água salobra aqui não caracteriza habitat de quase nenhum de nós ciclídeos.” Os peixes, ouvindo aquilo – e vendo que o “Senhor dos Alimentos, da Neve e da Água Fria” já tinha se afastado – começaram a se aproximar, não como “comitiva de boas-vindas” de um aqua onde existem ciclídeos, mas para ouvir...pois, de alguma forma eles “sentiam” que aquele ciclídeo dizia coisas que faziam sentido. Assim, Mr. Notatus criticou a (in)salobridade, a falta de espaço e que isso era um dos motivos do aumento considerável das disputas entre os ciclídeos daquele aquário (ele ouviu diversas reclamações enquanto falava), falou dos demais efeitos da superpopulação...e cansou-se de repente; também, acabara de receber um choque triplo: osmótico, térmico e de pH. “ - Gentem, vamos dar um tempo ao nosso novo colega; esperemos ver se ele sobrevive a chegada e à “morte misteriosa*”e depois voltamos a falar com ele.” - disse o peixe mais legal e jóia do aquário (Hemichromis bimaculatus). Todos entenderam e se recolheram. “ - E qual é o meu no “tífico”, você sabe?” - arriscou Frank, aproveitando a brecha, com a esperança infantil de que alguém, algum dia, saberia. “ - Você é híbrido, não está taxonomicamente classificado.” - Mr. Notatus fora lacônico (coitado estava exausto e cambaleante). “ - Isso eu já sei, mas híbrido é meu nome “venhemcular” e minha mãe não sabe meu nome “tífico”...hum...o que é nome “tífico”?” - Frank quis se fazer de sabido, mas acabou entregando os pontos. O novo peixe se riu ao ver aquele incansável peixinho tentar saber sobre as coisas, identificou-se com ele e melhorou do choque triplo. Mr. Notatus, era um espécime coletado no rio Negro onde era conhecido pelo seu notório saber. Conhecera muitos peixes exóticos introduzidos e passara por muitos aquários (de CAs, tropicais, de água fria e outros – deu pra perceber né?)...quem sabe um dia contar-se-ão suas histórias? “ - O correto é nome científico.” - frisou para ver se o pequeno entendia de vez - “E cada espécie peixe tem um, escrita em latim para não haver confusão...quer dizer, os peixes híbridos de aquário e os peixes ainda não identificados não têm...” Frank ficou triste. Mr. Notatus se apercebeu rapidamente e sua sabedoria permitiu contornar a situação imediatamente. “ - Mas podemos batizar a ti...eu sei como fazer isso! Já nomeei diversos outros peixes dos rios amazônicos e aquários por onde passei.” - juntou todas as suas forças, buscou a consciência que lhe fugia em rápidos lapsos e continuou - “Qual o teu nome todo?” “ - Frankstain.” “ - OK...que tal então batizarmos a ti como Pseudofishes frankstain?” Frank ficou radiante e trouxe a tona todas as características fenotípicas laranjas de sua mãe. Sentiu-se feliz como nunca, desde que tomara consciência de sua condição diferente de híbrido...tinha um nome agora e ninguém mais poderia tirar isso dele. Quando iria tentar uma nova questão, sua mãe gritou: “ - Frank! Hora de dormir!” (É gente, já anoiteceu...Conversa de peixe demora e esse capítulo durou todo dia...) Frank não questionou a ordem de sua mãe; sua vida estava resolvida. Foi até o amigo e beijou-lhe a face com tanto amor que o peixe (tonto) reanimou de novo e sorriu. “ - Boa noite Frank...” - disse Mr. Notatus. Entou em casa repetindo “Pseudofishes frankstain, Pseudofishes frankstain, Pseudofishes frankstain”...hehehe, não podia esquecer...sua mãe olhou e se riu...ela agradeceu o estranho...

*morte misteriosa era a morte que ocorria com 76% dos peixes que chegavam no aquário e que em 1 ou 2 dias morriam (ao ouvir aquilo, Mr. Notatus segurou as bolhas de riso, pois para ele eram óbvios os motivos de morte).

Fonte: texto adaptado do “Livro do Hibridismo e Respeito em Aquário de CAs: histórias diversas para peixinhos questionadores”

Comentário da revista “Look Like Fish”: “este livro tem sido a solução psicológica para as mães de alevinos híbridos em todos os aquários do mundo” - by Robert Baiacú

Título original do Capítulo: “Relatos verídicos de casos fictícios”

Lingua original: borbulhês

Tradução: Johnny Bravo's Translations Company

Jonnhy Bravo - 2005

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