Reproduzindo “Malawians”

Reproduzindo “Malawians”

Um passo-a-passo sobre a reprodução desses fantásticos ciclídeos
Por Bruno Galhardi























“M. estherae e sua prole”- Foto: Ezstyle(CMCA)


Sempre que mantemos determinada variedade ou espécie de peixe em nosso aquário, com o tempo, chega o inevitável desejo de reproduzi-lo (quando reproduzi-lo não é a meta principal).
Neste pequeno artigo, tentarei descrever alguns aspectos, opiniões, mitos e verdades, enfim, um apanhado sobre a reprodução em cativeiro desse grupo que vem conquistando cada vez mais adeptos, os “malawians”.
O que são “malawians”? Quais são suas relações reprodutivas na natureza?
Entende-se por “malawians” o grupo de ciclídeos provenientes do lago Malawi, também conhecido como Niassa.
São, de longe, o grupo de ciclídeos africanos mais popularizados no hobby, por uma série de motivos: seu colorido intenso, sua diversidade de espécies e, um aspecto que será focalizado nesse artigo, sua fantástica e relativamente simples reprodução.
Basicamente, a principal característica reprodutiva da maioria desses ciclídeos é a incubação bucal. Trata-se de um processo no qual a fêmea, após a desova, guardará os ovos, e posteriormente a cria, em sua cavidade bucal, num dos mais interessantes comportamentos da família Cichlidae. Tal processo será descrito com detalhes mais adiante.

















“M. estherae incubando” – Foto: Ezstyle(CMCA)

Outro ponto observável no comportamento natural desses peixes é a formação de “haréns”. Trata-se, na verdade, em espécies de colônias ou cardumes onde um macho “hiperdominante” mantém, para fins de reprodução, um grupo de fêmeas, que pode chegar às dezenas, dependendo da espécie envolvida. Eventualmente neste grupo podem coexistir machos “subdominantes” que não chegam a ameaçar, num primeiro momento, a liderança do macho “líder”. Observe as fotos:

















Foto:Ad Konnings

No círculo em vermelho, observamos um macho “hiperdominante” de Pseudotropheus saulosi, cuidando de seu “harém”: as fêmeas, de coloração amarela.














Foto:Ad Konnings

Já nesta segunda foto, observamos um grupo também de Pseudotropheus saulosi, entretanto, neste grupo vemos diversos machos (com coloração escura na foto). Um deles, provavelmente, é o “hiperdominante” do grupo, ao passo que os demais são os “subdominantes”, que, apesar da coloração e eventuais investidas sobre as fêmeas, não exercem ameaça efetiva ao macho líder, ainda que disputem a hierarquia constantemente. Um fato interessante é de que o macho líder pode vir a ser deposto, caso o macho desafiante se mostre mais imponente e/ou mais forte.
Sabendo dessa característica da formação de “haréns”, será tarefa do aquarista recriar essa condição no aquário, que facilitará bastante o sucesso da reprodução, caso estejamos lidando com espécies muito agressivas.
Como num aquário não contamos com tantas “áreas de escape” para as disputas de dominância dos machos, manter mais de um macho da mesma espécie no mesmo aquário pode ser desaconselhável. Do mesmo modo, mantê-los em casais ou um número reduzido de fêmeas para cada macho acarretaria na constante agressão delas por parte dos machos.
Passemos então para os aspectos da reprodução deles em cativeiro.
Você deseja “reproduzir seus peixes” ou “manter seus peixes”?















“L. caereleus com filhotes” – Foto: Márcio (CMCA)

Apesar de um tanto ambígua, esta deve ser sua primeira pergunta ao planejar sua montagem de malawians.
Como vimos, estes ciclídeos tem, como comportamento natural, a formação de haréns, com diversas fêmeas para um macho.
Para a formação de haréns, com diversos indivíduos, um espaço físico razoável do aquário seria requerido. Outro fator seria a presença de diferentes espécies de ciclídeos no aquário, que poderia inibir a desova dos reprodutores, predar a prole ou mesmo gerar “peixes híbridos” (cruzamentos entre espécies diferentes, gerando peixes sem espécie definida, prejudiciais ao hobby).
Seria incoerente afirmar que a desova não ocorre em aquários com diversas espécies de malawians. São peixe prolíficos, e que se reproduzem muitas vezes sob condições adversas. Porém, caso o objetivo primordial seja a reprodução de determinadas espécies, as condições serão muito mais favoráveis num aquário “monoespécie” (composto por apenas uma espécie de peixe), com o harém formado.
Como “regra geral” (de maneira nenhuma uma regra imutável, sendo apenas algo genérico), pode-se obter sucesso na reprodução da grande maioria dos malawians com um conjunto formado por um macho e três fêmeas, num único aquário.

Como montar um “aquário de reprodução?”

















“Aquário de reprodução” – Foto: Bruno Galhardi(CMCA
Deve-se, antes de tudo, selecionar a espécie a ser reproduzida. Caso o aquarista ainda não possua prática com a reprodução desses peixes, deve-se optar pelas espécies de exigências mais simples.
Em geral, uma boa opção são os peixes do grupo dos mbunas (gêneros Melanochromis, Pseudotropheus, Labidochromis, entre outros).
Um aquário com litragem em torno de 150L nominais é suficiente à maioria das espécies. Ciclídeos de maior porte e agressividade podem exigir um espaço maior.
Dois fatores devem ser observados na montagem
- Criação de um ambiente adequado: Devemos priorizar a demarcação de territórios e a existência de muitas tocas no aquário. Sendo o macho dominante no aquário, poderá vir a agredir as fêmeas que, sem refúgios, podem sofrer um stress excessivo. Outro ponto de extrema importância para a existência de tocas é o procedimento pós-desova: caso a fêmea, e posteriormente os filhotes, não forem retirados do aquário, deve-se fornecer esconderijos para que não sejam agredidos ou até mesmo devorados (filhotes, no caso, podem ser vítimas do ataque dos demais peixes do tanque).
- Qualidade da água: Este é, com certeza, um dos pontos chaves no sucesso da reprodução, principalmente quando tratamos de espécies mais sensíveis ou exigentes.
Circulação e filtragem reforçada (no mínimo cinco vezes o volume do aquário), amônia e compostos de nitrogênio a zero e atenção especial aos parâmetros, como pH, dH e gH, que devem estar preferencialmente elevados e estáveis, devem ser a meta. Temperatura estável e relativamente elevada (cerca de 28oC) auxilia também
Existem fatores que influenciam e estimulam a desova?
Existem sim, fatores que podem contribuir na desova dos malawians. Alguns do mais difundidos e eficazes:
- Trocas de água mais freqüentes e com temperatura e pH ligeiramente inferiores à água do aquário: Sabe-se que, na natureza, a desova no lago Malawi tem seu ápice na estação chuvosa. Na ocasião, um grande volume de água da chuva, mais fria e de pH baixo, é acrescentado ao lago, alterando suas características físico-químicas. Em geral, ocorre um ligeiro decréscimo na temperatura e uma flutuação de pH, que volta a se estabilizar logo.
Visando simular esse período das chuvas, pode-se efetuar trocas parciais de cerca de 5 à 10%, uma ou duas vezes por semana, repondo uma água previamente tratada, sendo cerca de 0.5 inferior, na escala do pH, à água do aquário, e cerca de 1 ou 2oC mais fria.
- Alimentação viva: Durante o período das chuvas, já descrito, ocorre outro fenômeno resultante do primeiro: com a abundância de chuvas e posterior alagamento de áreas marginais, ocorre uma explosão populacional de microorganismos, dentre eles a conhecida “Efemérida”. Trata-se de uma pequena larva, de vida curta (daí provém seu nome), que constitui um verdadeiro banquete aos habitantes do lago.
Através do consumo das efémeridas e outros microorganismos, os peixes acumulam reservas, seja para a produção de gametas (os ovos da fêmea são maturados mais rapidamente com a dieta) ou mesmo para as disputas por parceiros e dominância de haréns.
No aquário, encontramos um perfeito substituto dos microorganismos na Artemia salina, pequeno crustáceo facilmente encontrado em lojas do ramo. Larvas de mosquito e outros pequenos animais também podem ser utilizados.
Baseando-se nas minhas observações pessoais, posso afirmar que as desovas que obtive ocorreram num período não maior do que cinco dias após a alimentação viva.
Cabe aqui apenas um alerta: Procure, antes de tudo, se informar sobre a espécie que você mantêm. Determinados grupos não toleram altas e freqüentes doses de proteína animal, adoecendo sob tais condições, ao passo que determinadas espécies só serão saudáveis com uma dieta rica em proteína. Para espécies com baixa tolerância à proteína, procure fornecer alimentos vivos a cada 15 dias, e evite os excessos.
- Uso de sais específicos para ciclídeos africanos: Um ponto muito controverso. É fato a existência de sais comerciais (entenda por “sais” uma combinação dosada de elementos encontrados nas águas dos lagos do Rift Valley, tais como Carbonatos, Cloretos, etc.) destinados a recriar fielmente, no que confere a química da água, as condições dos grandes lagos africanos.
Sendo assim, são de fato um estímulo a mais na desova.
O que ocorre, entretanto, é a máxima, divulgada por alguns, de que “só se pode reproduzir ciclídeos africanos dos grandes lagos com o uso de sais”.
A experiência prática vem tornando este “mito” cada vez mais infundado, já que espécies tidas como de
difícil manutenção já se reproduziram diversas vezes, sob nossos olhos, em aquários sem adição
alguma de sais. Um exemplo:
desova de Protomelas taeniolatus (detalhe do ovo, no círculo em vermelho).














“Desova de P. taeniolatus “Red Empress” – Foto: Márcio(CMCA)

- Mantenha a qualidade da água e a saúde dos peixes: Pode ser redundante bater
nessa tecla, mas é, basicamente, o ponto fundamental no sucesso da reprodução
desses peixes. Mantendo os animais num ambiente adequado, com população racional, evitando stress e
doenças e com uma qualidade de água ideal, a reprodução seria apenas uma agradável conseqüência.
Como ocorre a desova? Existe algum “ritual” específico?
Apesar da atenção a reprodução ser voltada quase sempre ao momento da desova,
com o macho e a fêmea rodando em círculos, ocorrem sim certos “rituais” e sinais que antecedem
a desova, sendo possível ao aquarista detectar o momento previamente.
Quando se aproxima o período fértil da fêmea, podemos observar um ligeiro aumento da
sua região abdominal, devido aos ovos, bem como o aumento ou escurecimento da coloração.
Quanto ao comportamento, observa-se um aumento da agressividade, sendo que a fêmea,
ao invés de fugir das investidas do macho, passa a “responder” mais ao parceiro.











“Macho de S. fryeri fazendo a corte” – Foto: Ubiratã

Na foto acima, observamos um macho cortejando a fêmea, e esta parece atentar mais à exibição, um indício
da desova próxima.
Falando do comportamento do macho, observamos um aumento de coloração e uma frenética exibição. Dependendo da espécie, podemos observar o comportamento da “limpeza” do local da desova, onde o
macho parece girar e retirar os detritos continuamente, enquanto a fêmea parece observar se o
local está adequado a desova. Um substrato arenoso favorece bastante esse comportamento do macho,
sendo algo bem interessante de observar.
Quando o momento da desova em si se aproxima, podemos reparar uma pequena “saliência”
próxima à região anal da fêmea. Por essa saliência (chamada por alguns de “ovopositor”) serão expelidos
os ovos, que raramente ultrapassam a casa dos 40, em se tratando de incubadores bucais de
pequeno/médio porte.
Abaixo, uma disposição de fotos feita no exato momento da desova
(detalhes dos ovos nos círculos em vermelho):
















“Desova de P. Taeniolatus “Red Empress” – Foto: Márcio(CMCA














“Desova de P. Taeniolatus “Red Empress” – Foto: Márcio(CMCA















“Desova de P. Taeniolatus “Red Empress” – Foto: Márcio(CMCA)














“Desova de P. Taeniolatus “Red Empress” – Foto: Márcio(CMCA)














“Desova de P. Taeniolatus “Red Empress” – Foto: Márcio(CMCA)














“Desova de P. Taeniolatus “Red Empress” – Foto: Márcio(CMCA)














“Desova de P. Taeniolatus “Red Empress” – Foto: Márcio(CMCA)
















“Desova de P. Taeniolatus “Red Empress” – Foto: Márcio(CMCA)

Como demonstrado na seqüência, vemos o macho e a fêmea no típico “enlace” de reprodução,
onde se rodeiam e, enquanto ela liberta os ovos, o macho imediatamente os fecunda, para logo após
a fêmea proceder do recolhimento dos ovos em sua boca.

Após a desova, como será o comportamento do casal? Como deve agir o aquarista?
Tendo a fêmea terminado a desova, o macho irá insistir em um novo acasalamento. Como ela irá ignorá-lo e evitá-lo, acabará sendo agredida e expulsa do território.
Nessa hora é fundamental a presença de tocas e um bom espaço onde a fêmea possa se refugiar. Outras fêmeas no aquário ajudam também a atrair a atenção do macho.

















“Alevinos de L. caereleus retirados pelo “Stripping” – Fotos: Márcio(CMCA)

- “Stripping fry”: Trata-se de um procedimento onde, no momento adequado, são retirados os filhotes da cavidade bucal da mãe, interrompendo a incubação. Na minha opinião, um procedimento indicado apenas para aquaristas experientes, pois é exigida uma certa prática e cuidado no procedimento. Em geral, os filhotes são retirados da boca da mãe próximo ao 18o dia pós-desova. Retira-se a fêmea da água e, com os dedos ou algum pequeno utensílio, abre-se gentilmente a boca da fêmea, que expele os filhotes num recipiente pronto a recebê-los. Neste mesmo site há uma matéria ilustrada com uma excelente descrição sobre o método, com belas fotos do aquarista Henrique Gomes.



















“M. lombardoi incubando” – Foto: Bruno Galhardi(CMCA)

Durante o período de incubação, a fêmea intensificará sua coloração, sua agressividade e cessará sua alimentação, o que faz com que redobremos a atenção, já que, enfraquecida, poderá ser alvo de ataques de outros peixes ou mesmo de doenças oportunistas.
Após alguns dias de incubação, você poderá notar uma ligeira diminuída no “papo” da fêmea. Isso se deve ao fato dos ovos não fertilizados, que são consumidos por ela, para evitar contaminação por fungos aos demais ovos.
Evite incomodá-la nesse período, com manutenções ou modificações muito drásticas no aquário.
Próximo do fim do período de incubação, já é possível observar as pequenas larvas se movimentando dentro da boca da mãe e esta começa a engolir minúsculas partículas de comida, talvez para alimentar a ninhada.
Como cuidar dos filhotes após a fêmea liberá-los?
Após a incubação, a fêmea, normalmente, costuma cuidar da ninhada por alguns dias, até perder o interesse, o que não demora muito, devido ao apetite contido por semanas a fio. Antes de introduzi-la novamente no aquário principal, deixe-a convalescendo no aquário hospital por 2 ou 3 dias, com alimentação reforçada.
Notando o desinteresse, o melhor a fazer é separar a ninhada em outro aquário (se a fêmea foi separada após a desova, apenas retire a fêmea e deixe os filhotes neste aquário).
Os filhotes são totalmente independentes, aceitando qualquer alimento, desde alimentos vivos até a ração dada aos adultos.
É conveniente preparar diversas baterias de aquários de pequeno porte para dividir e “engordar” a ninhada até posterior venda. Sondar a procura de compradores antes de reproduzir seus peixes também evita alguns aborrecimentos com a venda das ninhadas.















“Alevinos prematuros recém-liberados de M. estherae” – Foto: Ezstyle(CMCA)

Para fins de rápido crescimento e desenvolvimento, recomenda-se uma atenção especial à carga protéica nessa fase da vida dos peixes. Alimentos vivos são excelentes opções.















“Alevino de P. demasoni se alimentando” – Foto: Márcio(CMCA)


“Alevinos de M. johanni” – Photocredits: CJBorn



“Filhotes de P. Cabro” – Foto: Ubiratã Braga


Espero que estas pequenas informações auxiliem você no sucesso da reprodução desses fantásticos peixes. Boa sorte com suas ninhadas!
Agradecimentos à: José Antônio (Ezstyle), Márcio e Ubiratã (Bira) Braga, pelas maravilhosas fotos
Bruno Galhardi - 2004



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