Para o oeste meu jovem!

Para o oeste meu jovem!
Os ciclídeos africanos muito além dos grandes lagos

Por Bruno Galhardi
Com certeza, você já deve ter ouvido falar sobre ciclídeos africanos. Ao ouvir essa palavra, provavelmente uma imagem de peixes multicoloridos habitando aquários lotados de pedras surge na sua mente. Provavelmente também você associa ciclídeos africanos como peixes extremamente agressivos (o que é um mito) e uma água extremamente alcalina e dura, impossibilitando a coexistência de outras espécies de peixes com eles no mesmo aquário.
Sendo assim, não a imagem que você deseja para aquele seu “plantado dos sonhos” ou aquele seu aqua comunitário, principalmente se você está se iniciando no aquarismo. Melhor deixar os ciclídeos africanos para aqueles “viciados” dos fóruns? De maneira nenhuma!
E se você fosse apresentado a CAs que resistem a pH e durezas mais baixas (alguns até preferem), mais sociáveis, de colorido que não deve em nada aos peixes dos lagos, e sendo que alguns podem ser mantidos em aquas plantados sem problema, já que não transformam a sua Amazonense rara em salada? E tudo isso mantendo o comportamento reprodutivo único dos ciclídeos, sendo que sua reprodução é extremamente simples de ser realizada!
Pensou naqueles ciclídeos africanos raros vendidos a preço de ouro nessas lojas pela NET? Nada disso! Eles provavelmente podem ser encontrados em qualquer lojinha de aquário de esquina ou até mesmo você possui ou já possuiu eles em seu aquário.
Sejam bem-vindo aos West Africans, os ciclídeos do oeste!

Principais representantes:

A variedade em espécies desse grupo de ciclídeos pode até mesmo ser equiparada ao ciclídeos dos grandes lagos.
Entretanto, são poucas as espécies difundidas em aquários, principalmente aqui em nosso país. Os mais numerosos são os representantes do gênero Hemichromis. Entretanto, o objetivo aqui é descrever as espécies mais usuais. De nada adianta se estender em espécies que sequer estiveram presentes em aquários brasileiros.
Definido isto, o foco deste pequeno artigo será em duas espécies que você provavelmente já deve conhecer: o Acará-Jóia e o Kribensis

Nomenclatura








Nome científico: Hemichromis bimaculatus. A classificação taxonômica desta espécie gera algumas controvérsias. Pode-se encontrar também como H. guttatus ou H. lifalili.

Nome vulgar: Acará-Jóia, Jóia, Jewel Cichlid










Nome científico: Pelvicachromis pulcher

Nome vulgar: Kribensis, Krib. Esse nome provém da antiga denominação da espécie: Pelmatochromis kribensis.

Habitat natural
São originários dos rios africanos localizados na porção ocidental do continente. Habitam cursos de água que entrecortam as florestas e também podem ser encontradas em deltas próximos as fozes dos rios.

Descrição (aspecto externo)

O acará-jóia apresenta uma certa variação de coloração. Podem ser encontrados exemplares que vão do verde ao vermelho vivo, passando pelo bronze e dourado. O exemplar mais encontrado apresenta uma coloração de vermelho característico, acentuada na época da reprodução. Espalhadas pelo corpo, são encontradas diversas e pequenas “pintas” brilhantes esverdeadas. Outra característica marcante é a presença de grandes manchas escuras, denominados ocelos. Geralmente apresentam-se 2: um na região do opérculo e outro no meio do corpo, na altura da linha lateral. Alguns exemplares apresentam um terceiro ocelo, na região do pedúnculo caudal. Atingem um tamanho máximo de 15cm

O Kribensis apresenta uma variação de cor muito maior. Como coloração “de fundo” apresenta uma cor creme, sobreposta em geral por duas faixas horizontais de cor escura que percorrem o corpo todo. Uma na altura dos olhos e outra mais próxima ao dorso. Na região ventral, observam-se muitas cores, predominando o vermelho nas fêmeas. Dependendo da variedade o ventre pode apresentar uma coloração verde, azul e amarela. Alguns exemplares apresentam ocelos localizados no término da nadadeira dorsal e a região superior da cauda. Existe também a variedade Albina. Atingem cerca de 10cm.

Dimorfismo sexual

Nos jóias observamos um forte colorido dos machos, que apresentam um vermelho escuro e grande número de pintas em relação às fêmeas, que apresentam um vermelho mais vivo e mais claro, com menos pintas. O macho também costuma ser, em alguns casos, maior do que a fêmea. Em pares formados, em geral o macho apresenta-se mais agressivo, embora este não seja um método 100% seguro de determinar o sexo dos exemplares.
Nos Kribensis a diferenciação sexual carece de melhor observação. Em geral a coloração dos machos apresenta-se mais escura que a das fêmeas, de colorido mais vivo. Uma característica evidente pode ser observada na época da reprodução: a fêmea apresenta uma grande e visível mancha vermelha na região do abdômen. Em relação ao formato do corpo, as fêmeas têm o corpo mais “roliço”, enquanto os machos apresentam o corpo mais alongado.

Nota: além do que foi dito acima, uma maneira sui generis de proceder em relação ao sexo da maioria dos ciclídeos é observar as nadadeiras dos peixes. Em geral, os machos apresentam as nadadeiras mais afiladas, enquanto as fêmeas as apresentam num formato arredondado.

Condições da água

Quanto ao Acará-Jóia pouco se pode falar. Já presenciei exemplares vivendo e reproduzindo em pH em torno de 6.8, da mesma forma que reproduzi meus peixes numa água cujo pH estava em torno de 8.2. A água ideal para esses peixes ao meu ver será aquela com uma dosagem de oxigênio que permita a respiração e esteja ausente de cloro. Contudo, se é necessário estabelecer um paradigma, pode-se adotar um pH em torno de 7.0 e dureza em 100ou inferior, condições muito parecidas com o habitat natural da espécie. Em relação a temperatura, trata-se de um peixe extremamente resistente e uma variação de temperatura auxilia a reprodução, como será descrito adiante. Convém apenas manter a temperatura acima de 200C e abaixo de 300C (o ideal é 250C).

Em relação ao Kribensis, o peixe ainda apresenta certa rusticidade, mais alguns aspectos devem ser observados. A espécie prefere pH neutro e ligeiramente ácido (6.8 a 7.0). Podem ser adaptados a pHs alcalinos, mas essa condição não favorece a reprodução. A dureza deve ser inferior a 100. Dadas essas condições, é perfeitamente viável a manutenção da espécie em aquários de biotópo amazônico, visto que é extremamente tolerável à plantas e demais peixes, desde que seja fornecido seu território. A temperatura pode ficar em torno de 250C

Alimentação

Neste tópico não se faz necessário à divisão entre as duas espécies. Aceitam uma variedade imensa de alimentos, sendo onívoros e micropredadores na natureza. Podem ser alimentados com ração em flocos ou pellets. Atente apenas para o tamanho dos pellets, que devem ser compatíveis com o tamanho da boca dos peixes.
São peixes extremamente vorazes, o que muitas vezes incentiva o aquarista a alimentá-los em demasia. Forneça uma quantidade que possa ser consumida em 5 minutos, três vezes ao dia e você não terá problemas com a alimentação desses peixes.
Quanto a alimentação viva, aceitam de tudo: artêmias, tubifex, larvas de mosquito. Em relação a minha experiência pessoal com jóias, notei que a alimentação viva, além de fornecer reservas que deixam os peixes mais viçosos, incentiva a reprodução. A primeira reprodução de meus peixes ocorreu cerca de dois dias após serem fornecidas artêmias pela primeira vez aos peixes.

O aquário ideal

Os jóias apresentam uma agressividade digna de nota, principalmente quando formam casais na desova. Devem ser mantidos em aquários de cerca de 80L para cada casal, fornecendo o território adequado aos peixes. Para companheiros de aquário, pode-se adotar peixes de mesmo ou maior porte e agressividade. Em virtude da extrema indiferença dos jóias em relação a química da água, observei diversas experiências bem-sucedidas com outros ciclídeos, africanos ou não como: Zebrinhas, Oscars, Jack Dempseys, Bocas-de-Fogo, etc. Recomenda-se manter jóias aos pares ou um macho com 2 ou 3 fêmeas. Machos são intolerantes entre si, salvo em aquários muito grandes.
Em relação às plantas, as resistentes são recomendadas como Bacopa, Anúbias e demais plantas de folhas grossas e resistentes. Fixá-las bem ao solo é recomendado, pois é comum revolverem o solo. Uma filtragem potente é recomendada, pois são peixes que se alimentam bastante. Quanto ao substrato, pode-se usar qualquer tipo. Algumas rochas formando esconderijos são indicadas. Algum elemento tamponador é recomendado para evitar a acidificação excessiva da água. Como observação, mantenha pelo menos uma parte do solo com areia fina. Pelo que observei os peixes utilizam esta área como ninho dos filhotes, incentivando assim a reprodução. Finalmente, não apreciam uma iluminação excessiva, preferindo as áreas de penumbra do tanque.

Os Kribensis apresentam, por sua vez, uma agressividade muitíssimo menor. Detém, quando formados casais, territórios de cerca de 60cm2, portanto, fornecendo esse território a eles, pode-se manter com diversas espécies de peixes, inclusive menores. É até de certo modo recomendado manter pequenos caracídeos, como os tetras, para desinibir o krib, de natureza tímida. São geralmente indiferentes as plantas, sendo recomendado mantê-los em aquários plantados. Experiências ótimas são observadas mantendo kribs em biotópos amazônicos com outros ciclídeos, como bandeiras e demais peixes.
A decoração pode conter elementos orgânicos, como troncos e raízes, formando esconderijos essenciais ao krib e acidificando naturalmente a água.
Quanto ao substrato e iluminação, não possui exigências específicas. Apenas evite uma iluminação excessiva e um substrato alcalinizante. Fundamentalmente, a maior exigência da espécie é em relação as tocas, que utiliza para se refugiar e desovar.

Cortejo e Reprodução

Jóias são incubadores de substrato. Após a corte, constituída no aumento da coloração dos peixes e uma espécie de exibição do macho, que em alguns casos pode ser um pouco agressivo com a fêmea, o casal limpa cuidadosamente o local da desova (geralmente uma pedra plana) e a fêmea deposita os ovos, de um tom ligeiramente alaranjado, que são imediatamente fecundados pelo macho, que faz círculos sobre o ninho para espalhar de maneira uniforme seus gametas. Ao todo a fêmea executa cerca de 10 posturas, totalizando um número que pode chegar a 1000 ovos, dependendo do tamanho e desovas anteriores do casal. Cerca de 90% dos ovos são férteis.
Após a postura, o macho circundará um perímetro de cerca de 15cm ao redor do ninho, e de lá irá se ausentar apenas para sair em perseguição a qualquer coisa que considere um intruso. A fêmea ficará sobre o ninho, agitando freneticamente suas nadadeiras para arejar os ovos. Caso algum intruso passe pela barreira do macho, a fêmea não hesitará em atacá-lo. Nota: entenda esse “intruso” por qualquer forma de vida que se movimente. Portanto, isso incluiu sua mão, caso a coloque no tanque. E acredite, a mordida deles dói muito!
Após cerca de 48h, os ovos eclodirão. Os alevinos serão transferidos pelos pais com a boca para um ninho cuidadosamente escavado no substrato (essa é a função da areia como substrato. Ela favorece a escavação). O cuidado com a prole será redobrado e ao sinal de intrusos os filhotes migrarão para a boca da fêmea e sairam de lá somente após passado o perigo. Gosto de fornecer náuplios de artêmia durante esta fase, mas os filhotes podem se virar muito bem com a comida dos adultos, como já ouvi de criadores experientes. Após cerca de uma semana, os pais arriscam pequenos passeios com a prole pelo aquário. Ao completarem cerca de 1cm, geralmente os pais perdem o interesse pelos alevinos e preparam-se para uma nova desova. Nesse momento devemos retirar os filhotes para aquários adicionais para o crescimento da ninhada e posterior venda. Tome o cuidado de separar os peixinhos por tamanho, pois o canibalismo pode ocorrer.

Nos Kribensis o procedimento é extremante parecido. Há o aumento da coloração, com destaque para a mancha vermelha do ventre da fêmea. Uma das diferenças da corte dos kribs é a de que são as fêmeas que tomam a iniciativa, e chegam a disputar o macho para a desova, caso existam vários peixes no tanque.
Após a corte, os peixes procuram um abrigo (alguns criadores utilizam uma metade de uma casca de coco, com um pequeno buraco que servirá de entrada) e lá depositaram os ovos, longe de predadores e olhares curiosos. Após a eclosão, os filhotes irão sair aos poucos do ninho incentivados pelos pais, que irão manter uma guarda constante da prole. Se quiser que toda a ninhada sobreviva, é conveniente separá-los assim que os pais mostrem desinteresse pela desova.
A alimentação dos filhotes pode ser feita com náuplios de artêmia, microvermes e até mesmo ração dos adultos esfarelada.

Nota geral: Esses peixes geralmente formam pares fixos, mas nada impede de que, ao ver um par que melhor lhe agrade, o peixe mude de parceiro.
Alguns citam que as desovas iniciais do casal geralmente falham. Aos poucos o casal vai adquirindo experiência até levar a desova até o final.

Conclusão

Se você está se iniciando em ciclídeos ou mesmo em aquarismo, o Jóia ou o Kribensis são os seus peixes. Mantenha um casal num aqua de no mínimo 50L e com certeza você estará adquirindo mais do que um simples peixe; estará adquirindo um animal dotado de excepcional inteligência e personalidade, que com certeza irá iniciá-lo nessa fantástica vertente do aquarismo: os ciclídeos africanos.

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