Hibridismo é Ruim?

Hibridismo é Ruim?


O que é hibridismo? Quando duas espécies taxonomicamente distintas juntam-se e formam uma mistura das duas, o indivíduo descendente dessa mistura é o híbrido.
Assim, taxonomia nada mais é que uma organização de tudo o que existe na natureza, dando nomes às diversas categorias em que vão se agrupando os organismos e por fim um nome a cada espécie, para identificá-la onde quer que você esteja – independente do país, pois tudo é escrito em latim.
No caso de nossos ciclídeos africanos temos espécies que estão filogeneticamente muito próximas umas das outras, o que facilita esse acontecimento (hibridismo). Por exemplo, juntar num mesmo aquário gêneros iguais pode acelerar ou mesmo incentivar o cruzamento entre espécies diferentes.
Filogenia é quando várias espécies descendem de uma mesma linhagem, como se tivessem seu ta-ta-ta-tataravô (põe ta nisso...) em comum e dessa forma compartilham informação genética muito parecida.
Estou complicando demais? Vejamos por outro ângulo então. Quando falamos CAs, estamos falando de Ciclídeos Africanos, certo? A palavra ciclídeo é o aportuguesamento da palavra Cichlidae, em latim, que por sua vez representa a família na qual estão enquadrados os peixes em questão. A “família” em termos taxonômicos é um nível que reúne diversos seres com características próximas, que podem ser comportamentos, funções fisiológicas, anatomias internas e/ou externas, e mesmo tudo isso junto. Abaixo dessa classificação existem basicamente outros dois níveis: gênero e espécie. Este é o último nível taxonômico, a partir daí podemos encontrar as raças, variedades ou sub-espécies. Por exemplo, Pseutropheus demasoni, o primeiro nome é o gênero e o segundo a espécie – sempre deve vir escrito em itálico.
Well, a origem dos ciclídeos do vale do Rift na África, ainda desafia os estudiosos. A teoria de que todos eles tenham partido de um único ancestral foi refutada. É mais correto afirmar que os diferentes lagos (Vitória, Malawi e Tanganyka) tenham seus próprios ancestrais do que dizer que todos os ciclídeos tenham vindo de um único ancestral comum que se espalhou por todos os lagos. Um estudo que visou comparar os ciclídeos por meio de sua morfologia externa e hábitos (Kocher et al., 1993), intentando dar-lhes parentesco, para posterior análise interna (confirmação através de DNA), foi capaz de trazer a tona fatos interessantes. Foram formados 6 pares para serem confrontados, em 2 grupos, cada grupo formado por gêneros de um só lago (Malawi e Tanganyka). Cada par foi selecionado de acordo com sua forma e função ecológica, que deveriam ser parecidas, com cognato frete a cognato. Para tanto foram escolhidos e confrontados:

TANGANYKA
Petrochromis
Bathybates
Lobochilotes
Tropheus
Cyphotilapia (frontosa)
Julidochromis
MALAWI
Petrotilapia
Rhamphochromis
Placidochromis (milomo)
Pseudotropheus
Cyrtocara (moorii)
Melanochromis (auratus)

Obs: dá uma paradinha aqui, vai na internet ou em algum livro buscar as fotos desses peixes e compare sua morfologia, veja como são realmente parecidos.

É aqui que se torna mais claro pra gente o que seria filogenia: o estudo da evolução das espécies (especiação) ao longo de uma linha. Se todos eles pertencerem a uma linha, ou seja, provierem de um único ancestral, a proximidade entre as espécies tem que ser menor, como se fossem primos ou coisa assim. Querem saber o resultado? Bem, realmente os ancestrais dos dois lagos são diferentes, os peixes estão entrelaçados por linhagens dos próprios lagos. Dentro dos lagos os peixes do Tanganyka, os “Tangs”, estão mais distantes entre si quando comparados à distância que as espécies do Malawi apresentam também entre si. O estudo leva os pesquisadores a concluir que possivelmente os Tangs partiram de mais de um ancestral, além de informar também que a evolução nesse lago começou antes – correto, pois o Tanganyka é mais velho que o Malawi – dando tempo de se formar mais espécies.
Como uma espécie se forma num lago desses? É um complexo processo de irradiação que envolve mutação, hibridismo, idade dos lagos, características excepcionais da água, características reprodutivas, polimorfismo trófico, flutuação dos níveis do lago, barreiras geográficas (como bacias), entre outros. Os Malawians, por exemplo, provêm de um tipo de Astatotilapia – não contemporâneo – oriundo de um rio. Hoje eles descendem de 4 principais linhagens:
1) habitantes das rochas (mbuna);
2) habitantes das areias (haps ou utakas...Aulonocaras estão aqui);
3) Astatotilapia calliptera (espécie encontrada nos 3 lagos);
4) Rhamphochromis.
Dentro de uma linhagem como a dos mbunas (composta por 10 gêneros – considerando Metriaclima) pode ser observado que algumas espécies são distintas apenas na cor, enquanto significantes diferenças tróficas serão observadas somente ao nível de gênero.

Hibridismo
Ah, o Johnny Bravo disse ali em cima que hibridismo está no processo natural de especiação, logo, responde a pergunta inicial se “hibridismo é ruim”. Vou hibridizar todos os meus CAs e criar novos Franks. “Não! Não faça isso!” – diz Johnny – “Leia mais um pouco, por favor...”
A separação na natureza de espécies tão próximas assim é mantida pelas “condições normais”, qualquer mudança ambiental – como as possíveis ocorridas no passado, tal qual uma densidade populacional extrema, talvez exacerbada por rápidas mudanças na composição da comunidade – pode contribuir para a hibridização e, assim, a especiação.
Diferenciação por cor, de cognatos ecológicos (mesma função na natureza), pode estar na primeira linha taxonômica – um passo para hibridizar – devido sua identidade ecológica. Para essa diferenciação, os olhos dos ciclídeos têm cones retinais para identificação dos pigmentos azul e amarelo/vermelho e múltiplas combinações dessas cores. A capacidade de uma fêmea, por exemplo, para reconhecer/discriminar os machos de sua própria espécie é uma habilidade importante para a manutenção da diversidade – especialmente quando as espécies estritamente aparentadas são simpátricas (mesma região geográfica) e não ecologicamente diferenciadas. A seleção sexual por cores é eficaz o suficiente para evitar hibridismo entre as espécies correlatas: como visto, existe a preferência das fêmeas por machos de uma determinada cor (tons de azul ou amarelo/vermelho). Diversas são as formas de burlar essa barreira...E não se precisa de muito para ultrapassá-las. Sob luz monocromática as diferenças de cor são mascaradas e o cruzamento interespecífico pode ser realizado, visto que as barreiras reprodutivas são quebradas. Todavia, a especiação não é uma ferramenta de uso espontâneo pelas espécies, elas precisam ser ativadas de alguma maneira, geralmente por algum tipo de estresse.
Essa quebra pode ser observada no nosso Gigante Adoecido, o lago Vitória, onde a turbidez da água ocasionada por suspensão de sedimentos, entre outros, é tamanha que provoca o hibridismo e a conseqüente perda de espécies.
O que podemos concluir com esse texto quanto ao hibridismo? Vê-se que as próprias fêmeas adquiriram a capacidade de reconhecer o parceiro, membro de sua própria espécie, para evitar o hibridismo e garantir a existência de sua própria por mais gerações. As barreiras de especiação quebram frente ao estresse ocasionado, seja por algum bloqueio que impeça a visualização, seja pela pressão ocasionada pela excessiva população ou ainda outros motivos que poderemos conjeturar por análises mais minuciosas, como por exemplo, o isolamento geográfico de grupos. Estresse é uma palavra que todo peixe de aquário vive no seu dia-a-dia e por isso que barreiras já naturalmente tênues acabam se tornando extremamente sensíveis em nossa casa.
Note que há uma tênue diferença que muitos não enxergam entre a situação natural (detalhe: no Malawi as 4 linhagens atuais estão ali há cerca de 2 milhões de anos, provindas de seu ancestral de 5 milhões de anos) e a situação do aquário (os mais velhos aquaristas devem ter 90 anos). Toda essa preparação de milhões de anos está nos genes dos ciclídeos e não desaparece no aquário – as fêmeas continuam sabendo quais são os parceiros ideais. Todavia, como visto, tal preparação pode ser “tapeada” – o que ocorre com os híbridos gerados. O papel de um aquarista preocupado também com a preservação das espécies da natureza deveria estar voltado à manutenção da integridade das espécies, conquistada com milhões de anos de tentativas e interações e não com o intento de conseguir novas cores e formas. Para cada espécie a natureza se utilizou de peculiares parâmetros “orientados” pela lei do caos e nunca foi pedida a opinião do ser humano para saber quais seriam as cores mais bonitas que deveriam ficar habitando os lagos nos últimos milhões de anos, a criação da natureza não inclui o parâmetro “valor comercial” ou o simples “vamos ver o que sai”.


Johnny Bravo - 2004


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